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Climatologia

Pesquisa da UFTM publicada em revista internacional aprimora a investigação das ilhas de calor

Publicado: Terça, 09 de Junho de 2026, 18h12

Uma agenda de pesquisa desenvolvida na UFTM para compreender a dinâmica do calor urbano em cidades do Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba sob o atual cenário de mudanças climáticas induzidas pelas atividades humanas acaba de ganhar nova projeção internacional. Esse reconhecimento se deve à publicação do artigo científico "Using surface relief classes with LCZs for an improved heat island methodology: Demonstration in a small Brazilian city" ("Uso de classes de relevo associadas às LCZs para uma metodologia aprimorada de investigação das ilhas de calor: demonstração em uma pequena cidade brasileira") na revista Urban Climate, um dos principais periódicos internacionais no campo da Climatologia Urbana.

A publicação resulta da colaboração entre Leandro de Godoi Pinton, professor do Departamento de Geografia (DEGEO/UFTM), Iain D. Stewart, professor da University of British Columbia (Canadá) e reconhecido internacionalmente por liderar o desenvolvimento de um sistema de classificação das paisagens adotado em escala global para a investigação das temperaturas urbanas — as Zonas Climáticas Locais (LCZs, na sigla em inglês) —, e Tainá Medeiros Suizu, geógrafa da Secretaria de Planejamento da Prefeitura Municipal de Uberaba (SEPLAN).

O estudo aborda uma limitação metodológica persistente na Climatologia Urbana moderna: a dificuldade de incorporar adequadamente o relevo na medição, interpretação e comunicação de seus efeitos sobre os climas térmicos das cidades.

Embora o sistema de classificação das LCZs, desenvolvido por Stewart ao lado do renomado climatólogo Tim Oke, tenha contribuído significativamente para padronizar a investigação das temperaturas urbanas em diferentes partes do mundo, permitindo comparações mais consistentes de atributos da forma e cobertura da superfície das cidades, a influência da altitude e das formas de relevo ainda permanece pouco explorada em grande parte dos estudos recentes.

Para enfrentar esse desafio, os pesquisadores desenvolveram uma abordagem baseada na combinação entre tipos de paisagens e formas do relevo, resultando nas chamadas "classes de relevo LCZ". A proposta permite selecionar locais de monitoramento mais representativos e aprimorar a interpretação das diferenças de temperatura observadas entre bairros e cidades.

 

Ilustração do modelo conceitual das classes de relevo LCZ. (Fonte: Fig. 5 do artigo de Pinton, Stewart e Suizu (2026), Urban Climate. Reprodução autorizada sob licença Creative Commons CC BY 4.0).

 

"Os trabalhos do Stewart já haviam destacado a importância do relevo nos estudos clássicos de Climatologia Urbana, e como esse aspecto recebeu menos atenção na literatura moderna sobre as ilhas de calor. Nós tínhamos esse desafio de separar os efeitos produzidos pela urbanização daqueles associados ao relevo para capturar um sinal térmico urbano mais puro. Essa questão é particularmente relevante em nossa região, onde encontramos cidades situadas em diferentes altitudes e com variações nas formas de relevo no interior da sua malha urbana, mesmo em cidades de pequeno porte. Essas características dificultam comparações e a identificação de padrões térmicos regionais”, explica Leandro.

Os resultados revelaram agrupamentos claros nos valores de temperatura do ar e nas magnitudes das ilhas de calor em função das diferentes formas de relevo local. As áreas urbanas localizadas nas amplas superfícies planas dos platôs foram consistentemente mais quentes em resposta à maior exposição à radiação solar durante o dia e à menor ventilação noturna induzida pela topografia. Por outro lado, os bairros compostos por um arranjo mais denso de edificações pequenas, que são setores normalmente mais aquecidos das cidades, apresentaram uma redução das magnitudes máximas das ilhas de calor quando situados em vertentes ou patamares de vertente. Esse comportamento térmico nessas duas formas de relevo com menor elevação revela suas influências naturais na dissipação do calor, como o maior sombreamento e a menor incidência direta de radiação solar durante o dia, e a promoção de fluxos de ar frio à noite.

Para duas cidades pequenas investigadas em nossa região — Sacramento e Conceição das Alagoas, a abordagem produziu estimativas mais confiáveis das magnitudes máximas das ilhas de calor. Os valores médios variaram de 2,2–3,7 °C em bairros com casas pequenas, alta densidade de ocupação e predomínio de superfícies pavimentadas; enquanto bairros com edificações mais espaçadas e maior cobertura permeável, as magnitudes oscilaram entre 1,4 e 3,3 °C. Essas evidências reforçam o potencial da abordagem para subsidiar estratégias de planejamento urbano mais sensíveis às características ambientais locais. Diante do estágio inicial de expansão dessas duas cidades pequenas, os resultados apontam oportunidades para intervenções de baixo custo capazes de equilibrar a densidade construtiva e a infraestrutura verde por meio da ampliação da arborização e abertura de parques urbanos vegetados.

  

Comparação dos padrões térmicos urbanos em duas cidades pequenas do Triângulo Mineiro. (Fonte: Painel B da Fig. 14 do artigo de Pinton, Stewart e Suizu (2026), Urban Climate. Reprodução autorizada sob licença Creative Commons CC BY 4.0).

 

Segundo os autores, a aplicação das “classes de relevo LCZ” também auxilia na identificação de áreas que funcionam como fontes de ar mais frio para as cidades, como superfícies vegetadas localizadas no platô e vertentes. A preservação desses ambientes pode contribuir para reduzir os efeitos do aquecimento urbano em futuros processos de expansão territorial.

Para consolidar a aplicação da abordagem como uma ferramenta de apoio ao planejamento urbano sensível ao clima, os autores destacam a necessidade de novos estudos em cidades com um relevo mais complexo. “Acreditamos que um olhar mais atento à influência do relevo é fundamental para ampliar a compreensão das ilhas de calor em cidades do nosso ambiente tropical, onde as interações entre as características da paisagem urbana e o relevo tendem a ser mais complexas, e certos padrões desse fenômeno atmosférico local observados a partir de cidades relativamente planas da América do Norte e da Europa nem sempre podem ser diretamente transferidos para a nossa realidade”, afirma Leandro.

A publicação reforça a inserção do Departamento de Geografia da UFTM nos debates científicos internacionais sobre clima urbano e contribui para o desenvolvimento de abordagens mais precisas para a investigação das ilhas de calor em cidades brasileiras.

Acesse o artigo completo na revista Urban Climate AQUI

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